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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Da queda do Muro à universidade

A Alemanha está em festa. Comemorou, no passado dia 9 (domingo), o 25º aniversário da queda do Muro de Berlim e que deu origem a (re)unificação das duas alemanhas (RFA e RDA), cerca de onze meses depois. É um marco ímpar na história geopolítica contemporânea que assinalou o fim da ‘Guerra Fria’, da União Soviética (URSS), do desmantelamento da ‘Cortina de Ferro’, algo que muitos dos políticos, estadistas e analistas, não previam acontecer tão cedo e tão rápido, apesar das reformas políticas impostas por Gorbachev, com a sua Perestroika, na (ainda) URSS. O Leste (a começar pela então Checoslováquia) virava a Ocidente para incrédulo de alguns e regozijo de muitos. Ainda a propósito, apesar do sentido político e crítico da afirmação, o PCP tem toda a razão quando, a propósito desta comemoração, disse que foi uma “unificação forçada”. É bem verdade… forçada pela vontade de muitos povos viverem a plenitude da liberdade e da democracia. Comparativamente, este marco histórico fez, a muitos portugueses, relembrar o impacto dos acontecimentos políticos do 25 de novembro de 1975.
Estes 25 anos, após esse dia gelado de 9 de novembro de 1989, ficaram marcados por um novo quadro geopolítico internacional, espelhado no significativo número de adesões de países da ex-URSS à União Europeia e à NATO, significando uma maior hegemonia europeia. Quadro que se viria a alterar após o 11 de setembro de 2001, com as consequentes crises no Médio Oriente, Afeganistão, o maior peso geoestratégico dos Estados Unidos, e, mais recentemente, um novo braço de ferro entre a Rússia e a Europa/Estados Unidos, por força do conflito na Ucrânia.
Mas estes 25 anos após a queda do Muro de Berlim e da unificação das duas alemanhas resultaram igualmente num maior “domínio” político e económico da Alemanha sobre a Europa, mais concretamente sobre a União Europeia e a sua Zona Euro. Ao ponto da chanceler alemã, Angela Merkel suscitar um conjunto significativo de antipatias, mesmo que, a par disso, um mesmo número (ou superior) de mãos estendidas sempre que a economia e as finanças de alguns países entram em colapso. Mas uma das críticas apontadas à Sra. Merkel é o “à vontade” com que mete a foice em seara alheia. Entre o ditar o jogo financeiro da zona euro, as ameaças políticas a Inglaterra, surgiu recentemente a afirmação pública de que em Portugal e em Espanha há licenciados a mais. Caiu o Carmo e a Trindade. Surgiram logo as previsíveis reacções do universo do Ensino e de alguns sectores do Governo. Bradaram aos céus, apontando números que revelam que em Portugal apenas 19% da população é licenciada, contra os cerca de 25% na Alemanha e os 25,3% da média da União Europeia. Além disso, a afirmação infame da chanceler alemã era, no mínimo, inaceitável face ao “piscar de olho” constante a licenciados portugueses, nomeadamente na área das engenharias. Mas será que Angela Merkel disse algum disparate? É que, apesar dos números apontados, a realidade só subscreve a afirmação de Merkel: número elevadíssimo de jovens licenciados no desemprego; excessivo número de recém-licenciados que emigraram; excesso de cursos superiores desfasados da realidade económica, empresarial, científica, social e cultural portuguesa; desinvestimento nas áreas científicas e de investigação; desinvestimento no ensino superior, nomeadamente no politécnico, e falta de estruturação do ensino intermédio e profissional (sendo que este é, infelizmente, visto como o ensino dos excluídos, dos pobres e dos coitadinhos); e já para não falarmos nas ruas da amargura em que se encontra a área da formação. E, obviamente, volvidos 40 anos após o 25 de Abril de 74 (quase o dobro da queda do Muro de Berlim), há ainda, na sociedade portuguesa, um notório sentimento elitista: ou se é professor, doutor ou engenheiro, para se ter direito ao mérito social, à status, à afirmação pública.
A Sra. Angela Merkel não disse nenhuma barbaridade… sim, há licenciados a mais em Portugal para a nossa dimensão e realidade.

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